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Enviado pelo autor
10 março, 2008

Lembranças de criança

Por Benedito C. A. Franco

Fabriciano, lugarejo distrito da cidade de Antônio Dias, MG, tornou-se movimentado, com gente chegando de todos os lados: fundou-se a Acesita.

Compradas algumas fazendas, entre elas a do Sr. Raymundo Alves, cuja sede depois virou o primeiro hotel, e a do Sr. Heitor, em cuja casa, mais tarde, foi morar o engenheiro chefe o Dr. Alderico. A primeira englobava os hoje bairros centrais, Usina e Funcionários, a segunda pelos lados da Olaria. Conta-se que várias fazendas foram invadidas - reclamar para quem, se hoje as multinacionais fazem o que querem e fica por isso mesmo! Imagine naquele tempo, quando imperava o ex-ditador Vargas!

Os chefes e quase todo o pessoal, no início, ficavam, em Coronel Fabriciano, MG, na pensão do Sô Armando e da mulher, a Baiana - eta mulher trabalhadeira! Também hospedavam no Hotel da Dona Raquel e Sô Zé Cornélio, ajudados pela filha Mirú e o filho Antonio e a esposa Tereza - uma pensão mais elegante! Quando leio livros sobre os desbravadores, lembro-me do pessoal recém-chegado, com os chapéus de palhinha - os ingleses também usavam, trabalhando na Vitória Minas (Vale do Rio Doce).

Um pouco antes de a Acesita vir para Fabriciano, Fabriciano chamava-se Calado. Um local perto, mais a leste, tinha o nome de Caladinho, onde hoje tem a Unileste. Caladão fica no meio das lindas serras que formam um paredão ao norte da cidade, depois do bairro Melo Viana - Melo Viana é mais antigo que Fabriciano. As serras do Caladão, vistas de Fabriciano, parecem intransponíveis: pedras nuas, altas e belas - de um azul escuro ou prateado, quase pontiagudas – uma paisagem divina. Fabriciano está a 250 m acima do nível do mar, mas nas serras do Caladão a altitude chega a 1.260 m.

E por falar em ingleses, vieram eles para a construção da Vitória Minas, estrada de ferro que desbravou de Vitória a Itabira, indo atrás do minério de ferro da região - enfrentando a malária, a febre amarela e todo tipo de doença tropical. Papai mais de uma vez me relatou que um rapaz do Caladão, seu afilhado, quando os ingleses se foram, acabou sendo levado por eles, para trabalhar em um trecho da Transiberiana. O rapaz, terminado o contrato dos ingleses, por lá ficou como maquinista, até sua aposentadoria na Sibéria, quando então voltou. O governo russo enviava para ele, todos os meses, o dinheiro da pensão.

De quando em quando papai levava-nos ao centro de Acesita. Atravessávamos o Rio Piracicaba de bote, depois do Pinga, e subindo, íamos passando por árvores desnudas e escassas, na planície onde está assentada a usina - antes era mata fechada com árvores centenárias - até chegarmos ao centro, lugar da sede da fazenda do Sr. Raymundo Alves, em frente da qual passa o córrego que vem dos lados do Pico Ana Moura - onde hoje assentam as antenas de TVs e telefônicas da região.

Os pioneiros de Acesita trouxeram um caminhão Chevrolet 1946, o da gradinha na frente, acho que era verde folha e a gradinha amarela. Também uma "baratinha", ou perua – seria uma VAN de hoje - muito bonita, quase toda de madeira envernizada, caberia de oito a dez passageiros - ainda me recordo do chefão dentro dela, o Dr. Alderico. A oficina e a garagem na casa do Tio Totonho, ao lado de um lote vago, hoje ocupado pela casa do Sr. Zé Avelino e o hotel, na Rua Cel. Silvino Pereira - o Coronel ainda vivia. A baratinha levava o pessoal para os trabalhos na Acesita.

Achei muito estranho fazer a travessia do Rio Piracicaba longe, depois da fazenda do Sô Domingos, onde instalaram uma balsa e onde mais tarde fizeram a ponte. O Sô Domingos, português, o primeiro morador de Fabriciano.

Sr. Militão, chefe da segurança. O Sr. Mundico, gerente do armazém com enorme movimento. O Sr. Gallo montou a farmácia. Construíram também uma igreja no centro - acho que o Padre Abdala apareceu junto – está lá até hoje. Ao lado, um hospital, cuja diretora era irmã de minha mãe, Tia Vivi, e perto, a Agência dos Correios, comandada por Tia Zelica - seu marido Davi era o alfaiate dos bacanas.

Enquanto a Acesita pertenceu ao município de Coronel Fabriciano ela era isenta de impostos municipais - isenção dada pelos vereadores, exceção feita ao Doca Pires, mais tarde prefeito da cidade. Quando acabou essa regalia, a Acesita esforçou para o desmembramento do Município, tornando-se três: Timóteo, Ipatinga e Fabriciano - ganhando com isso mais isenção de anos a fio.

Hoje a Acesita mudou de nome e é a única fábrica de inox da América Latina.

Papai tinha um compadre - morava lá pelos lados da Cachoeira Escura. Uma enchente no Rio Doce arrastou sua casa matando oito dos catorze filhos.

Pouco depois da fundação da Acesita, talvez em 1946 ou 1947, uma tromba d'água fez grandes estragos pelas bandas do Pico do Ana Moura e no leito do ribeirão vindo de lá e que passa no centro de Acesita. Menino, fui pra ver e fiquei impressionado com o que a força da água provocou.

A tromba d'água arrasou a casa e morreram os seis filhos restantes do compadre de papai - mudou-se para lá com a família havia pouco tempo. Apareceu em casa de meu pai solicitando ajuda:
- Pois não, compadre, pode vir morar nesse barracão aqui em frente.
- Cumpade, vô só pegá o que me restou - a mulé e as pouca vazia.

No mesmo dia o compadre se apossou do barraco e do terreno - corresponderia aos quatro lotes em frente à nossa casa, praticamente na rua principal de Fabriciano. Papai, contra a vontade de mamãe, acabou doando o barraco e o terreno para o compadre.

Assim era meu pai.


Enviado pelo autor
10 março, 2008

Tríplice ditadura

Ditaduras pra santo nenhum botar defeito!

Por Benedito C. A. Franco

Deixamos a Tatiana com os tios e padrinhos, o meu irmão Antônio Élcio e a Zezé, e na Brasília, carro novinho em folha, partimos de Foz do Iguaçu – a minha esposa Hedda, a Fernanda e eu - atravessando o Rio Iguaçu, numa balsa, para a Argentina. Para trás uma ditadura e adentramos em outra duríssima - terrível no substantivo e no superlativo.

Acabando a travessia, deparamo-nos com a fiscalização dos papéis – um coronel do exército exercendo toda a “otoridade ditatorial’. Perguntas as mais diversas, com cara de mau e rosto parecendo talhado a machado - da tortura psicológica passamos ilesos.

Seguindo em direção a Pousadas, um fenômeno interessante e impressionante: do lado sul uma nuvem vermelha imensa, tomando o horizonte, e uma ventania fortíssima. Esperei a maior das tempestades - e veio mesmo - mas de poeira vermelha.

Em Pousadas, comi a pizza mais gostosa de minha vida - pizza de cebola - até hoje não entendi como se pode fazer uma pizza deliciosa de cebola. Interessante que outro dia um cliente da loja, conversando com o meu empregado, estava justamente elogiando essa pizza que ele comeu por aquelas bandas.

No interior, três tipos de moedas: o peso, o peso real e o peso legal - o povo do interior falava em "mijones de pesos". O povo mais simples das cidades já tinha se acostumado com o peso mil vezes mais valorizado, o peso real. E o povo da capital usava o peso legal. Se você tomasse um refrigerante, poderia ser cobrado em "dos e meio mijones de pesos", "dos e meio miles pesos reales" ou ainda "dos e meio pesos legales", dependendo da pessoa com quem você falasse ou do lugar onde estivesse - por tudo isso dá para perceber o tamanho astronômico da inflação que grassava no país.

De Pousadas para Corrientes, retas e mais retas nas estradas, uma com quarenta e dois quilômetros, e outras com quase isso. Os postos de gasolina - nafta para eles - simplórios, todos sem calçamento - paga-se para encher os pneus. Pode-se encontrar um restaurante digno da capital e com preços módicos. Nas cafuas ladeando a estrada, de sapê, paupérrimas, vende-se rapadura de mel - uma delícia.

Chegando a Corrientes, a polícia parou-me, pegou um questionário de dezesseis folhas, fiz questão de contar, e, acintosamente, perguntou-me não sei quantas minúcias e preenchendo tudo com as respostas e com a presteza digna de brucutus ditatoriais - mais de hora em sol escaldante. Naquele norte da Argentina os termômetros chegam a 42 graus C no verão e a menos dez em certos invernos.

Corrientes é cidade alegre, com jogos disputados no Rio Paraná. Em um restaurante, pedi vinho e estranharam de eu não solicitar também uma "gasosa" para misturar com o vinho – costume do argentino. Aliás, quando a gente pede um café, vem acompanhado de um copo de "gasosa" - uma água mineral alcalina e super gasosa - daí o nome. Há bombonier e não boteco por lá. Os "Cafés" são muito alinhados, mesmo no interior.

A Fernanda, então com quatro anos, vendo uma vassourinha, pediu-me para eu lhe comprar. Era um domingo e fui à missa, com a Fernanda e a vassoura, não a largava jamais, numa linda igreja antiga. Igreja cheia de fiéis. Fernanda entrou e foi varrendo o centro da igreja desde a porta até ao altar-mor, chegando bem perto do padre que fazia o sermão. Todos olhavam-na compenetrados e sérios e mais séria e compenetrada estava ela com seu "serviço".

Saindo de Corrientes, uma grande ponte. Diziam, com um certo ressentimento, ou constrangimento, que a ponte era a segunda maior da América Latina - só menor que a Rio-Niterói. Na Argentina costuma-se referir-se sempre "ao maior do mundo", em tudo existente por lá. Em se falando de estradas, para os padrões das brasileiras, as argentinas são bem simples. No trevo de entrada da ponte, fui parado por policiais e um oficial convidou-me a ir à guarita, de metal. Fazia um tremendo calor, mais de 40 graus. Deixei a Fernanda e a mãe dentro do carro. O oficial pedia-me "bina". Fiz-me de desentendido e lhe falei não ter "bino". O blá-blá-blá de "bina" e "bino" durou uns quarenta minutos, dentro da guarita, em um calor sufocante. Desistiu da "bina" e me mandou embora. Depois de um pedágio salgado - não só no Brasil a gente é assaltado nos pedágios (triste consolo, hein!... E aqui não se sabe quem são os privilegiados donos de pedágios, se houve concorrência e quem entrou e quem soube da concorrência! Com certeza o povo nada sabe.). Na saída da ponte, mais policiais armados até os dentes. Desta vez passaram a mão no rosto e nos cabelos de minha mulher, humilhando-nos ao máximo. O negócio é não reagir, advertiram-me antes no Brasil, pois todos de metralhadoras em punho, apontadas para você e com semblantes de deboche.

Na Argentina fui parado, humilhado, espoliado e dissecado por policiais. Mas, um povo maravilhoso, educado e culto, compensando em muito as forças brutas que possuem. Um dos mais belos e diversificados paises do mundo - não tenho dúvidas.

Depois de percorrer o Chaco, para atravessar o Rio Paraguai na divisa para Assunção no Paraguai, fui à Aduana, onde deveria pagar um dólar pelos papéis para passar de um país para outro, conforme lei internacional. Acabei pagando cinqüenta e sete. Quando voltei, minha esposa conversava com um senhor e sua filhinha brincava com a Fernanda. Ele veio a mim, indignado:
- Vamos telefonar para o quartel general em Buenos Aires e reclamar das barbaridades sofridas pelo Senhor na ponte de Corrientes.
- Que nada, moço. Depois de todos os papéis arrumados, e a um minuto da travessia, vou arranjar mais encrencas com os ditadores?

Não se conformou. Nisso chega da aduana a esposa. As meninas logo se entenderam e as mulheres também.

Entramos rápido na balsa, cortando o belo Rio Paraguai...encontrando outra ditadura não menos terrível: o Paraguai do General Stroessner...

Argentina, um dos paises mais diversificados e maravilhosos, com um povo educado, culto e orgulhoso de si e de sua pátria.

Em poucos dias, três duras ditaduras: Brasil, Argentina e Paraguai.

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Duelo de banjos
Nota para a seqüência MIDI: *****

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Belo Horizonte, 6 janeiro, 2008